Dia 643 Lágrimas de vendedora

 

Há uns dias, encontrei um anúncio de venda de um pequeno apartamento na Baixa do Porto. O anúncio não tinha fotografias do imóvel, apenas um pequeno descritivo.

Tomei a iniciativa de ligar ao contacto que lá estava. Pela voz, aberta e recetiva ao meu telefonema, imaginava do outro lado da linha uma jovem. Perguntei se era a proprietária, disse que sim, a única. Perguntei sobre o apartamento, e a informação permitia-me imaginar como seria. Agendámos a minha visita. Aconteceu ontem.

Apesar da localização do apartamento ser valiosíssima, o prédio era velho. Quanto ao apartamento, localizava-se num 4º piso sem elevador. Para além de muitas, as escadas eram penosas de subir, alguns degraus tinham a dimensão do espelho igual à do cobertor.

Quanto ao apartamento em si, a luz natural era fabulosa, só que… ajudava a perceber todos os defeitos (humidades) que o apartamento tinha, nomeadamente aqueles barrados por uma tinta barata qualquer, de um investidor astuto qualquer.

Quanto àquela jovem, na casa dos 25, há um ano caíra num conto qualquer. O impulso levou-a a adquirir um imóvel com pena, aquela que lhe cai hoje sobre as costas. Tem dois empréstimos para pagar, o do Crédito Habitação, e o do Crédito Pessoal que viabilizou a operação.

Encostada ao móvel da sua minicozinha, desabafou-me a sua história. Sentia-se presa. Eu também a sentia presa, ainda para mais dizia para mim mesmo, como é que ela se vai ver livre do apartamento, sem ter de pagar para o vender…

Em dois momentos vi o que nunca vi, uma jovem cliente a (tentar) ser forte. As lágrimas estavam quase, quase, quase a cair…

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