O quarto das traseiras

Já que me dá essa liberdade, eu escolho aquele quartinho nas traseiras, onde vocês estavam antes de eu chegar.

O quarto das traseiras

Ao final da tarde de ontem, tive uma reunião com um casal na casa dos 70 anos. O casal vive num apartamento T3, em primeira linha de rio, e cujo apartamento detém uma maravilhosa janela sobre o Douro. Garanto-vos, é mesmo, mesmo maravilhosa. Vivem lá há 40 anos, com as suas histórias, e com as suas memórias. O prédio é antigo e não tem elevador, a razão principal porque ponderam a venda.

 

Entrei no apartamento, e vi chinelos quentinhos nos pés, ou melhor, vi chinelos que tinham lá dentro uns pés quentinhos. Pedi licença para me descalçar e o Sr. informou-me da não necessidade do ato. Queria muito descalçar-me, mas respeitei.

 

A visita por entre os pequenos compartimentos, demorou não mais do que 5 minutos. O apartamento era singelo, e de leitura simples, mas para além daquela estrondosa vista de rio, havia algo mais…

 

Estávamos os três na sala a ver o rio e perguntei aos Srs. – Podemos sentar-nos e conversar um bocadinho?

Sim, claro – Prontificou-se o Sr. amavelmente. Imediatamente após o silêncio falou também, foram dois, três segundos, mas ficamos a olhar uns para os outros, aguardando eu que me encaminhassem para a mesa ali a dois metros. – Onde quer conversar? – Perguntou-me o Sr.

Já que me dá essa liberdade, eu escolho aquele quartinho nas traseiras, onde vocês estavam antes de eu chegar. – Respondi eu.

 

O Sr. olhou-me nos olhos e consentiu. Ele tinha a máscara na face, e tinha os olhos à vista. A máscara era baça, os olhos não e naquele momento menos ainda…

 

Em todo o apartamento fazia frio, à exceção do quartinho lá atrás, não mais do que 11metros quadrados era a grandeza, e cuja função era ser a verdadeira sala de estar do casal. Havia uma televisão e montes de carrinhos de brincar. Os carrinhos estavam bem estacionados por cima de um daqueles móveis robustos, de madeira maciça, de tom escuro, e claro… os carrinhos eram do neto. Havia um pequeno radiador de 4 rodas, estava ligado, e havia a porta do quarto que estava fechada para que o calor não saísse.

Sentei-me numa poltrona, eles no sofá, bem juntos.

 

Conversámos uma hora, e fiquei muito mais rico por poder estar naquele recanto. Concluímos a reunião com um até breve. Apalavramos uma segunda reunião, desta vez com a presença dos dois filhos para que melhor os pudessem aconselhar. Vai acontecer? Não sei, espero que sim, e espero que consiga ajudar este casal, mas esta reunião não esquecerei porque também eu usufruí daquele quentinho que me soube tão bem.